Eus : Comunidade e União.
Quem são vocês, Nós, Eus?
“Eus” soa estranho, não é? Algo que vocês estão acostumados a ouvir no singular, e eu jogo assim de uma forma plural, calma, que não é um "Eus” erro ortográfico, mas um convite a pensar o "eu" não como uma singularidade, e sim como a síntese formada a partir de um movimento dialético de seus ancestrais. Somos resultado de muitos outros que vieram antes de nós, que lutaram, choraram, esperaram, esperançaram e evoluíram.
Por exemplo, sob uma visão mais cristã: viemos de eva e Adão e tudo que representa
. Sob uma visão Ubandista: Temos nossos ancestrais, entidades, guias, como pretos velhos ... E até mesmo uma visão ateista nos mostra que somos uma evolução, uma construção. Nossa sociedade, tudo que foi erguido aqui, não veio de uma única ideia ou origem, mas foi sendo construído, agregado, evoluído a partir de conhecimentos ancestrais.
E quando digo "ancestrais", englobo também os vivos. É muito comum pensarmos em ancestralidade como algo ligado somente a quem já partiu deste plano carnal. Mas nossos ancestrais também são os vivos: seus pais, por exemplo, e até além, sem ser de linha sanguínea. Eu sou travesti e entre nós, consideramos muitas que vieram antes como nossas ancestrais. Chamamos de “ancestravas ”. Não tenho laço sanguíneo com elas, mas as considero ancestrais, porque me possibilitaram estar aqui hoje. Me ensinaram, muitas vezes sem querer querendo, quem eu era ou me deixaram mais próxima do ponto de partida para descobrir isso.
Ou seja, quando conseguimos entender de onde viemos temos um ponto de partida , conseguimos também entender quem somos e talvez, quem não somos.
Mas mesmo tendo um ponto de partida, não significa que chegamos a uma conclusão. Se é que há de se chegar a uma conclusão, pois estamos vivendo, e devemos nos permitir ser. Aflorar o ser que nascemos para ser, para saber quem somos.
Saber quem somos é essencial, porque só assim saberemos o que podemos fazer. Mas esse “poder fazer” não é uma regra limitante. É um ponto de partida, de onde começar a agir em si ou no mundo à sua volta.
O esquecimento é uma violência.
Nós, brasileiros, temos uma péssima mania de esquecer. Esquecemos a história, a cultura, os crimes cometidos, como a ditadura, por exemplo, entre tantos outros. E quando esquecemos, damos espaço para que esses acontecimentos se repitam. Ao saber quem somos, ao conhecer nossa história, as histórias do “eus”, saberemos o que podemos fazer diante do presente.
Um corpo que transgride. Ou seja, que ultrapassa e renega os “juízos” os juízos impostos ao nascermos. Vamos nos aprofundar nisso depois, mas por enquanto, fica essa reflexão. Uma breve ideia do que pode ser.
Será que buscamos juízo?
Depende... se nos permitimos ser.
Buscar juízo exige sair da zona de conforto, ou seja, mais uma vez: permitir-se ser e aceitar a diversidade da própria existência.
Como diz a grandíssima Cantora Jup do Bairro “Somos um corpo sem juízo, que não quer saber de paraíso”.A partir disso, podemos entender que esse "paraíso" tem um sentido não apenas religioso, mas também social. Ao assumir não ter juízo, renegamos o juízo que nos é imposto. O ato de julgar o que é certo ou errado, o que pode ou não pode.
Onde pode um corpo sem juízo chegar?
Até onde podemos ir? Tudo já parece muito predefinido. Nascemos e, pelo simples fato de termos uma genital, já lidamos com o papel de gênero e todas as suas violências e limitações. Esse juízo, mal articulado, se enraiza em nossa mente. É o nosso próprio juízo.
Mas questiono , até onde seus corpos chegaram?
Os obstáculos que impedem o autoconhecimento
O que nos impede de sabermos intimamente quem somos, ou de criarmos nosso próprio juízo?
Vivemos em um mundo que classifica e segrega desde antes de nascermos. Por exemplo: no ultrassom, já definem a cor do quarto, o tipo de roupa, as expectativas de criação da criança. Tudo isso já impõe um roteiro de quem ela “deveria” ser.
O filósofo Sartre disse: “o inferno é o outro”. Esse “outro” que nos olha, que nos rotula como se fosse o juízo final. E essa pressão social nos desencoraja a saber quem somos, nos convence a ser algo que não somos (ou apenas uma parte do que somos).
Mas eu garanto: é possível transgredir esse juízo que nos é dado, a partir do momento em que damos espaço à alma e ao coração. Um ótimo exemplo é a comunidade LGBTQIAPN+.
A maioria dessas pessoas transgrediu os juízos impostos ao nascer, e por isso, sofrem ataques por causarem movimentos nos espaços que ocupam. Como, por exemplo, um caso do menino que foi morto por questionar por que era chamado de “viado”.
Infelizmente, as barreiras são muitas. E recentemente, no Espírito Santo, surgiu uma legislação que assegura aos pais o direito de proibir seus filhos de participarem de encontros como este.
Tudo isso acontece para que a gente não saiba quem somos ,e, logo, não saiba o que podemos fazer. Os poderosos têm medo do que podemos fazer. Tentam ao máximo nos dividir, nos aprisionar, nos atacar um por um fisicamente, psicologicamente, espiritualmente... Inclusive atacam nossas ancestrais, que somos nós mesmas no fim das contas.
Devemos ser o que já nascemos para ser. A pergunta “quem somos?” é complicada, mas a resposta já começa a aparecer quando olhamos para o que fazemos e sentimos.
Aceitar quem somos é parte do caminho.
É necessário aceitar quem somos, muito antes de descobrir. Conto algo triste a vocês: o caso de muitas pessoas LGBTQIAPN+ que, vindas de famílias cristãs, se ajoelhavam em oração quando crianças, pedindo a Deus para “tirar aquilo delas”. Pedindo para arrancar o desejo, a identidade, o que sentiam. Como se fossem demônios a serem expulsos.
Mal sabiam elas que estavam pedindo para Deus tirar quem elas são.
Só podemos acreditar num Deus que acredite em nós, em nossa forma mais verdadeira. E antes de Deus, é preciso aceitar nossa diversidade humana, permitir que nossos corpos sem juízo possam fluir, existir, resistir.
E isso só é possível juntos em união, em comunhão.
É preciso arriscar, sair da zona de conforto, amar nossas limitações e nossas liberdades. E a partir disso, quem sabe buscar juízo.
É nóis, com muito orgulho.
-Sami Maga

